Bom de Bola: celeiro de cidadãos

13/10/2017
Carlos Stegemann
É sempre um espetáculo quando eles e elas entram em campo: os semblantes tensos, sob quaisquer condições climáticas, com os uniformes coloridos, diferentes estaturas e tipos físicos, apesar da idade igual ou muito próxima. Nas pernas de cada um os sonhos vão muito além dos 40 minutos de jogo: começam nas pequenas cidades de origem e viajam até grandes centros do futebol mundial – Barcelona, Madri, Londres e Paris. Na verdade, começam nas casas simples e nas escolas de periferia de onde a maioria é egressa. Sonhos que são divididos com os pais (e muitos avós ou tios e madrinhas, que fazem o papel de pais) e familiares.
 
Em cada time escolar que disputa o Bom de Bola [anteriormente chamado de Moleque Bom de Bola em Santa Catarina; Guri Bom de Bola entre os gaúchos e Piá Bom de Bola no Paraná], há mais de duas décadas, prevalece um sentimento muito positivo de competitividade, sob os alicerces da amizade e da integração. A experiência vivenciada pelos milhares de adolescentes é parte indissociável da memória definitiva que adquirem neste período tão importante de suas vidas.
 
Esta experiência se torna superlativa nas fases finais, quando há tanto a expectativa de conquistarem um título estadual, certamente o primeiro, como de serem observados por olheiros a serviço de grandes clubes.
 
A agitação dos intermináveis minutos que envolvem as finais do Bom de Bola representa o ápice ou a derrocada. O sorriso tem a lágrima como sua irmã triste. A decepção de tropeçar no último degrau é uma dor quase insuportável aos tão jovens gladiadores da bola.
 
Todavia, tudo é mera aparência. Momentos após a química humana [que os impulsiona] normalizar, já não se distingue os vencedores, senão pela cor das medalhas que balançam em seus peitos. O Bom de Bola é maior do que a conquista.
 
Tudo bem, ainda há espaço para os sonhos, que em alguns casos se materializam. Eduardo Costa, Fernandinho, Rafinha, Filipe Luís – atletas que tiveram o privilégio de vestir a camisa da seleção brasileira, também usaram os coloridos uniformes do BB. Além deles, talvez tenhamos duas centenas de nomes que chegaram ao futebol profissional e construíram carreiras vitoriosas. São referências – contudo, repito: O Bom de Bola também é maior do que eles.
 
Na disciplina e no respeito exigidos; na oração; no grito de dor; na torcida dos pais; no desespero do professores/treinadores; na paciência [pedagógica] dos árbitros; na narração emocionada dos jornalistas esportivos que cobrem as finais; na azáfama dos refeitórios e alojamentos; na ingenuidade presunçosa das promessas de craques; nos gramados barrentos, esburacados e até repletos de pernilongos – em cada detalhe está a essência do Bom de Bola. O que faz deste torneio algo bem maior do que um celeiro de craques, mas de cidadãos. E o Brasil precisa muito de cada um deles.
 
Texto e foto de Carlos Stegemann - jornalista, escritor e diretor da PalavraCom